Covid-19. Como a queda no gasóleo pode ameaçar o que chega ao prato

Covid-19. Como a queda no gasóleo pode ameaçar o bife que chega ao nosso prato

Os fabricantes de rações para animais estão preocupados. A crise provocada pela pandemia de covid-19 está a ter um efeito-dominó que pode penalizar seriamente a capacidade de alimentação de animais, com reflexo no final da cadeia: a disponibilidade de proteína animal nos pratos dos portugueses pode ficar comprometida. No limite, podemos ter menos bife na nossa mesa. Em parte, por estranho que pareça, porque estamos a consumir menos gasóleo.

A razão da preocupação não é unicamente a pandemia. Mas a contração económica provocada pelo novo coronavírus provocou uma forte quebra no consumo de combustíveis (cerca de 50% em termos homólogos, segundo as petrolíferas).

E com menos gasóleo no mercado nacional também baixou o volume de incorporação de biocombustível, uma incorporação que já estava especialmente reduzida desde o início do ano porque as petrolíferas têm optado por cumprir as suas obrigações usando títulos de biocombustível que sobraram do ano passado em vez de usar fisicamente o biodiesel para tornar o gasóleo mais amigo do ambiente.

É um problema em cadeia: a incapacidade de escoar biocombustível deixou as poucas fábricas que o produzem em Portugal com o stock no limite da capacidade, e sem capacidade para armazenar mais também não podem continuar a produzir. Ora, sem produção de biocombustível não há produção de farinha para as rações para animais, uma vez que essa farinha é o que sobra do esmagamento das matérias-primas usadas para extrair o óleo (como soja e colza).

“Desde o princípio do ano que a opção da maior parte dos comercializadores de combustíveis tem sido usar títulos de biocombustível. E têm feito muito poucas encomendas aos produtores de biocombustível”, revela ao Expresso o secretário-geral da Associação Portuguesa de Produtores de Biocombustíveis, Jaime Braga.

“Se não houver extração não há farinhas e não há abastecimento normal ao mercado das farinhas para animais”, alerta o responsável da APPB, que junta entre os seus associados as empresas Iberol, Sovena, Prio e Torrejana.

Governo ao corrente

Esta quarta-feira o Ministério da Agricultura tomou conhecimento da preocupação dos industriais das rações, numa reunião (por videoconferência) do grupo de acompanhamento sobre o abastecimento de bens alimentares.

“Esse tema, embora não fosse central, foi discutido”, confirmou ao Expresso o presidente da FIPA – Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares, Jorge Henriques. “Há razões para alguma preocupação se a capacidade de extração de óleo para farinhas puder ser comprometida”, acrescentou.

Mas o líder da FIPA sublinha também que globalmente o país está a conseguir gerir a cadeia de abastecimento de produtos agroalimentares. “Até ao momento não há rutura do abastecimento de matérias-primas para o mercado agroalimentar. Alguns consumos de produtos estão a baixar, mas o sector está a funcionar, apesar das dificuldades, dos aumentos de preços e de alguns constrangimentos”, explicou Jorge Henriques.

Quanto ao abastecimento de farinhas para animais, as várias fontes ouvidas pelo Expresso indicam que a solução pode passar pela intervenção do secretário de Estado da Energia, João Galamba, nomeadamente determinando de forma temporária a obrigação de incorporação física de biocombustível no gasóleo e suspendendo a possibilidade de as petrolíferas utilizarem os títulos de biocombustível. Isso permitiria normalizar o escoamento de biocombustível e a produção de farinhas para animais. “É o desejável”, frisa Jaime Braga, da APPB.

Fonte oficial do Ministério da Agricultura admitiu que “as extratoras de sementes têm quantidades substanciais destes óleos armazenados, não necessitando de continuar a produzir, ou seja, não gerando os coprodutos necessários à produção de alimentos compostos para animais”. “Embora, neste momento, a produção de alimentos para animais esteja a acontecer com normalidade, esta é uma questão concreta que estamos a acompanhar e a monitorizar”, declarou o Ministério da Agricultura ao Expresso.

Sobre se a solução passará pela obrigação de incorporação física de biocombustível por parte das petrolíferas, em vez de usarem títulos, o Ministério da Agricultura diz apenas estar em articulação com outras áreas governativas. ” É necessário encontrar condições para que as empresas extratoras possam armazenar os produtos que já têm em stock, criando-lhes, também, condições para que continuem a produzir e, assim, a gerar os coprodutos necessários para a alimentação animal. A criação destas condições está a ser estudada e articulada com outras áreas governativas”, explica o Ministério.

O Expresso tentou contactar o secretário de Estado da Energia, sem sucesso.

Notícia publicada no Expresso (Covid-19. Como a queda no gasóleo pode ameaçar o bife que chega ao nosso prato).